Música Gospel por António Pires (BLITZ – 26 Setembro 2004)

Raramente um género musical é tão fácil de caracterizar e resumir: música negra religiosa dos Estados Unidos. Gospel, responde-se de pronto. E, no entanto, o gospel é muito mais aberto e livre do que isso.

 

A música é uma forma de comunicação. Do músico/cantor consigo mesmo, com outras pessoas, com Deus (ou com os deuses). Se calhar, as primitivas – e primeiras – manifestações musicais da humanidade prendiam-se com a necessidade de comunicar com os primeiros deuses que os homens (re)conheceram: a natureza circundante. Flautas que imitavam pássaros, tambores que mimavam o som dos trovões, cordofones cujo som parecia água a correr, trompas que competiam em potência com o bramir dos elefantes…

A idade Média na Europa assistiu à emergência do canto gregoriano – coros masculinos que, a uma só voz (una e codificada para não permitir desvios ou heresias), elevavam os seus cantos ao Deus católico, amplificados pelos “Marshall” naturais que eram as catedrais góticas. Nas mesquitas muçulmanas, o muezim canta versos do Corão para chamar os fiéis à oração. No Tibete, os monges budistas podem elevar as suas vozes para abençoar as parcas colheitas nas encostas dos Himalaias – etc, etc, etc.

Nos Estados Unidos, no século XIX, toma forma um novo género de música religiosa: o gospel (que significa, literalmente, «Evangelho», que por sua vez significa «Boa Nova»). E o gospel desenvolve-se no seio de igrejas protestantes (baptistas/evangélicas/pentecostais) do sul dos Estados Unidos, espaços onde os ex-escravos negros do sul podiam cantar, a solo ou em coro, os seus hinos a Deus – preces, agradecimentos, louvores – onde incluíam elementos africanos: uma maior liberdade no fraseado dos cânticos (improvisos), a inclusão de elementos percussivos (palmas, o bater dos pés), a dança. Notas impensáveis, na altura, na música religiosa europeia ou dos Estados Unidos brancos. E notas vindas dos cânticos religiosos dos escravos (os espirituais negros) já antes «ensaiados» nos campos de algodão – o mesmo «alfobre» dos blues – onde trabalhavam. No gospel, cantado a capella ou com a ajuda de instrumentos, cantam os pastores da igreja e/ou fieis, muitas vezes num movimento de parada e resposta, de dialogo uns com os outros. É uma música aberta a toda a gente e sem hierarquias internas, desde que a Fé seja comum.

Apesar de haver outras formas de gospel – como o country gospel (canções country de temática religiosa) – é o gospel tradicional, de raiz afro-americana, que nos interessa aqui. Um género que começou logo a ter alguma visibilidade com digressões dos Fisk Jubilee Singers no final do século XIX e com a fama de Charles Albert Tindley (pastor metodista que começa a dar concertos a solo no inicio do século XX e escreveu clássicos do gospel como «Nothing Between My Soul and the Savior» ou «We’ll Understand it By and By») e de Thomas A. Dorsey (aka Georgia Tom), pianista e cantor de blues que codificou o gospel e lançou vários coros profissionais nos anos 20 e 30 do século passado.

Entre os nomes mais respeitados do género podem incluir-se Mahalia Jackson (cantora promovida por Dorsey e que viria a ser o nome maior do gospel), os Pilgrim Jubilee Singers, os Sensational Nightingales, Golden Gate Quartet, a cantora Dorothy Love Coates, os Mighty Clouds of Joy, as Sweet Honey in the Rock (apesar de também incluírem outros géneros nos seus alinhamentos) e os Blind Boys of Alabama.

Nas ultimas décadas, o gospel tradicional continua a ser cantado por milhares de cultores mas também evoluiu para outras formas, com a inclusão de variadíssimos géneros musicais – rock, soul, etc. – dando origem à CCM (música cristã contemporânea), «género» que afinal são muitos géneros, apenas com as letras de índole religiosa a uni-los, onde se podem incluir artistas como o grande Sam Cooke (famoso cantor soul e pastor protestante), a cantora Amy Grant, os rappers DC Talk e bandas como os metálicos Stryper ou os punks MXPX. Nada de estranhar se pensarmos que Elvis Presley gravou inúmeros hinos religiosos e até Bob Dylan, em finais dos anos 70, gravou um álbum cristão, Slow Train Coming. E foi no gospel que se basearam maioritariamente, embora com letras de temática mais politizada e interveniente, as «black american freedom songs» do Movimento dos Direitos civis.

Por cá, o gospel tem alguma visibilidade através de grupos como os Shout (que acompanharam Sara Tavares) e ganharam uma nova «aura» com a inclusão de um coro gospel no álbum Eclesiastes 1.11, dos WrayGunn.

Blind Boys of Alabama

 

Os Blind Boys of Alabama, companheiros de Bem Harper no novo álbum There Will Be a Light, existem já desde 1939. São, portanto, senhores de uma carreira com quase sete décadas, iniciada quando eles ainda eram adolescentes e estudantes no Alabama Institute for the Negro Blind, uma escola para cegos, no Alabama, Estados Unidos. Eram originalmente cinco e quase todos cegos de nascença – daí o nome adoptado originalmente, The Five Blind Boys of Alabama, depois de começarem por ser conhecidos como Happy Land Jubilee Singers – e não escondiam a influência do,na altura importantíssimo, Golden Gate Quartet, um dos maiores grupos gospel de meados do século XX.

A primeira gravação dos Blind Boys ocorre em1948, e o quinteto tem alguns sucessos na década seguinte – um deles com o significativo «I Can See Everybody’s Mother But I Can’t See Mine» (numa alusão à visão interior de Maria, mãe de Jesus Cristo e «de toda a gente», mas à impossibilidade de verem a sua mãe terrena). E é em 1950 que retiram a palavra Five do seu nome, devido à morte de um dos membros.

Gravando regularmente ao longo das últimas décadas, os Blind Boys of Alabama tiveram alguns pontos altos da sua carreira no musical da Broadway The Gospel At Colonus (peça de Bob Telson e Lee Breuer, levada à cena em 1983) e em colaborações várias, nomeadamente com Peter Gabriel (para cuja editora, a Real World, têm gravado nos últimos anos).

No grupo ainda se mantêm os fundadores Clarence Fountain (geralmente visto como o líder), Jimmy Cárter e George Scott, acompanhados pelos membros mais recentes Joey Williams, Ricky McKinnie, Bobby Butler e Tracy Pierce.

 

WrayGunn

 

Paulo Furtado, vocalista/guitarrista dos WrayGunn e faz tudo enquanto Legendary Tiger Man, é um apaixonado pela música gospel, bem como pelos espirituais e pelos cantos de trabalho da música americana. «Torna-se até difícil perceber onde começa uma coisa e acaba outra», esclarece. Mas embora o gospel faça parte da sua diária dieta musical, Furtado não descobriu logo clássicos como Marian Anderson, Mahalia Jackson ou Sister Rosetta Tharpe, tendo chegado ao gospel segundo «um percurso normal e lógico» e que teve como estação de partida os Cramps. Foram eles que o obrigaram a «voltar atrás às coisas mais antigas, dos anos 40 e 50, do rock & roll e dos blues», sendo que os blues o levaram inadvertidamente a entrar pelo mundo do gospel adentro. «Primeiro um pouco à mistura e por acaso», confessa, «depois comecei a procurar mais coisas relacionadas mesmo com o gospel». E o acaso voltaria a marcar pontos através de uns quantos «discos baratos comprados em feiras, e em que comecei a ouvir algumas coisas de que gostei bastante».

Fora dos clássicos, que diz preferir e conhecer mais profundamente, Furtado afina o seu gosto por nomes como os Holmes Brothers – «uma mistura de rhythm & blues, rock & roll e gospel» -, os Blind Boys of Alabama e Solomon Burke.

Eclesiastes 1.11, o segundo álbum dos WrayGunn, conta com a participação do coro gospel português B-Magnified, ideia que já perseguia o homem-tigre «há algum tempo», adiada por «várias razoes». «Até no primeiroalbum de WrayGunn há uma parte com um bocado de gospel e já nessa altura teria gostado de ter tido uma participação de um coro». Entretanto a ideia concretizou-se e Furtado diz-se presentemente aliviado por o grupo ter sido capaz de não ficar preso à presença dos B-Magnified em disco, com os WrayGunn a actuarem tanto com o coro gospel quanto no clássico formato de banda de rock & roll.

 

Glam Rock por Luís Guerra (BLITZ – 10 Janeiro 2006)

Há 35 anos o GLAM ROCK tomou de assalto um cenário musical cansado das barbas longas do «flower-power» e órfão da criatividade dos Beatles. Na linha da frente, Ziggy Stardust (ou David Bowie) e o «guerreiro eléctrico» Marc Bolan, duas histórias diferentes que convergem numa era de ambiguidades, extravagâncias e rock n’ roll. O BLITZ revisita os ícones do movimento e encontra a sua descendência actual.

 

Quando, a 16 de Setembro de 1977, Mark Feld (mais tarde Marc Bolan, compositor, vocalista e guitarrista dos T.Rex) falecia na sequência de um acidente de automóvel, o glam rock que o popularizara estava já esquecido. Fenómeno meteórico surgido no início dos anos 70, o glam constituía reacção ao art-rock de bandas como Pink Floyd ou Génesis, em cavalgante aperfeiçoamento de estruturas musicais que viriam a redundar no rock progressivo. A receita parecia simples: melodias orelhudas devedoras da pop mais mastigável das últimas décadas (menção importante aos «girls-groups»), o mesmo menear de ancas que levou hordas de jovens adolescentes a gritar perante Elvis Presley e um devoção absoluta aos «riffs» das raízes do rock n’ roll. Nada disto era, contudo, uma enorme novidade numa altura em que os Beatles tinham já dito adeus à vida em conjunto e, antes disso, redecorado (e reinventado) todo o edifício de um então jovem circo pop. A diferença residia, no entanto, na atitude: o rock n’ roll dos anos 50 era transgressão mas também exploração primitiva, investida em território virgem e balão de ensaio permanente; a apropriação do esqueleto do mesmo em 1971 ou 1972 era menos inocente e, mais do que um fim em si mesmo, constituía um instrumento de recusa da estilização progressiva operada pelos alquimistas saídos do psicadelismo de meados da década de 60.

A uma fórmula musical tida como de fácil execução e – mais importante – já parte de uma memória colectiva, juntava-se uma aposta visual na excentricidade, na dualidade sexual, na adopção de uma postura «show-biz» em que a aparência e a teatralidade eram parte integrante da «verdade» mesmo que através de uma máscara ou, simplificando, de subterfúgios extra-musicais. Cortam-se barbas, aperaltam-se penteados, compram-se estojos de maquilhagem, abusa-se de lantejoulas, calçam-se botas com sola de décimo segundo andar, assumem-se personagens (Ziggy Stardust, o herói glam encarnado por David Bowie) e a música veste-se de dramatismo sem perder de vista um lado de entretenimento que a televisão não desaproveitou (a era de ouro do Top of the Pops ou do The Old Grey Whistle Test). «Homem ou mulher?», questionar-se-ia o mais incauto transeunte na londrina Oxford Street perante um fã de glam-rock vestido a preceito.

Numa era em que a velocidade das descobertas é proporcional à quantidade de terreno por desbravar, o rumo de Marc Bolan e David Bowie, pioneiros do movimento, cria escola: artistas emergentes como Gary Glitter, Slade ou Sweet capitalizam e gravam canções que hoje encontramos em compilações da TV Shop (Glitter nem poderá receber os dividendos, já que se encontra detido no Vietname, a braços com acusações de pedofilia). São a face mais barata de um fenómeno que, como quase todos, envolve artistas com uma visão (e o talento para suportá-la) e meros seguidores que se limitam a adequar-se a conjecturas favoráveis. Bandas como os Queen ou Roxy Music começam em terrenos glam carreiras que derivam, com sucesso, para outras paragens. Em terras americanas, as simpatias surgem de Iggy Pop (um camaleão como Bowie), Alice Cooper (ícone pioneiro de um certo lado negro do rock) e dos New York Dolls (estética transformista, apelo «camp» e um lado «slutty» que abre portas ao punk).

Baile de Máscaras

Visto como anedota pelos autodenominados apreciadores de música «a sério» (que, nesta altura, são bandas como os Yes ou Emerson, Lake & Palmer), o glam rock é ainda hoje visto como o «freak-show» da história do rock. Uma estética considerada vã recolhia pouco apreço em diversos quadrantes: o rock, transformado pela consciência progressiva em música «adulta» (o abandono do «hit-single» para as tabelas, álbuns com longas suites de 15, 20 minutos) é agora ameaçado por canções simples de 3 a 4minutos que, aos olhos dos cultores da evolução, são encaradas como sintoma de regressão numa linha temporal rumo à perfeição – «I drive a Rolls Royce / ‘cause it’s good for my voice», canta Marc Bolan em «Children of the Revolution».

O glam-rock, que começa no momento em que Marc Bolan expande e electrifica os Tyrannosaurus Rex (folk mística que hoje conhece impacto inusitado em artistas como Devendra Banhart) é um autêntico viveiro de êxitos de topes até 1975. Electric Warrior, em 1971, é o álbum que abre as hostilidades e, no ano seguinte, Bowie inscreve o seu cunho pessoal com The Rise and Fall of Ziggy Stardust & The Spiders from Mars. O glam acaba, para Bowie, em 1973 mas arrasta-se em solo britânico através de «pastiches» com os Bay-City Rollers ou Alvin Stardust. Bolan ainda grava «20th Century Boy», um dos mais reconhecíveis legados glam (vide Velvet Goldmine, filme de Todd Haynes), mas os T.Rex desintegram-se lentamente. Nada voltaria a ser o mesmo.

Filhos do glam

Embora o legado glam não seja dos mais confortáveis de se assumir (algumas biografias eternizaram a ideia de que o período glam correspondeu a uma era de primazia plástica e de vazio de conteúdo), alguns artistas consideram-se hoje influenciados pelo glam ou neles se reconhecem os maneirismos de T.Rex e companhia. Se Devendra Banhart tem mais em comum com Marc Bolan pré-glam (ou seja, durante o período de fantasia mística), Marilyn Manson recupera a androginia e a mistura de géneros sexuais em Mechanical Animals (1998). Essa ambiguidade foi sempre uma característica dos Placebo (de Brian Molko) e dos Suede (de Brett Anderson) – se os primeiros interpretaram «20th Century Boy», dos T.Rex, para a banda-sonora de Velvet Goldmine, os segundos criaram em Dog Man Star (1994) uma óbvia emulação da intensidade do Bowie de Ziggy Stardust ou Aladdin Sane. Morrissey, a voz dos Smiths, chegou a ser director do clube de fãs britânico dos New York Dolls. Os britânicos Darkness restituem o lado drmático dos Queen e o hair-metal/glam-metal dos anos 80 (Faster Pussycat, Mötley Crüe, Poison, Cinderella; em Portugal, os Ibéria) que, por sua vez, era já uma revisão do glam dos New York Dolls e do rock mais desbragado dos Kiss. Tarefa semelhante é desempenhada pelos Velvet Revolvar, de Scott Weiland (ex-Stone Temple Pilots) e Slash (ex-Guns ‘n’ Roses). Em Portugal, é conhecida a devoção de João Peste, dos Pop dell’Arte, a Marc Bolan. O próprio Peste terá inspirado o vocalista dos Belle Chase Hotel JP Simões (em tempos guitarrista dos Pop dell’Arte) que, no teledisco de «Emotion & Style», de Fossanova (1998), assume identidade indefinida e que na «constelação de influências» aponta os Roxy Music. Mais recentemente, os Post-Hit prestam vassalagem ao glam, via Soft Cell, na electrónica pop de «Glamorama» (que também é uma alusão ao romance homónimo de Brett Easton-Ellis).

Glam Rock na tela

PHANTOM OF THE PARADISE de Brian de Palma (1974)

Filme de culto do realizador de Carrie e Scarface, é uma adaptação livre de O Fantasma da Ópera (romance de Gaston Leroux), O Corcunda de Notre Dame (obra de Victor Hugo) e Fausto (conto alemão adaptado por Goethe). Winslow Leach (William Finley) é um cantor e compositor que é roubado por Swan (Paul Williams), um produtor musical satânico. O produto do saque é uma canção.

ROCKY HORROR PICTURE SHOW de Jim Sharman (1975)

Inspirado num musical de 1973 muito popular em Londres, resume grande parte das vertentes do glam – «um sonho musical tornado realidade», referia um dos posters promocionais. Uma festa bizarra e extravagante no castelo do Dr. Frank-N-Furter (Tim Curry), um travesti que ali acolhe a convenção anual de visitantes do planeta Transsexual, serve de pretexto para a apresentação da última invenção do médico tresloucado: Rocky Horror (Peter Hinwood), um jovem que teme os avanços sexuais do seu criador. Da banda-sonora, de Richard O’Brien, fazem parte títulos como «Sweet Tranvestite» ou «I Can Make You a Man».

VELVET GOLDMINE  de Todd Haynes (1988)

História do breve estrelado de Brian Slade (Jonathan Rhys-Meyers), vocalista rock de unhas pintadas e sexualidade indecifrável, que engendra o seu próprio fim. A banda-sonora, supervisionada por Michael Stipe (REM), conta com nomes como Placebo, Pulp e elementos dos Sonic Youth e Radiohead em originais criados especificamente para o filme e versões de alguns sucessos de glam rock.

David Bowie – A arte de mudar

Ao longo de quase quatro décadas, DAVID BOWIE mudou de penteado, roupa, preferência sexual e estilo musical ao sabor da conveniência e da liberdade artística. Mas se um dia apenas uma personagem for lembrada, essa será Ziggy Stardust.

1971: David Robert Jones, conhecido artisticamente como David Bowie, lança Hunky Dory, o seu quarto álbum. Apesar de «Space Oddity», dois anos antes, ter causado algum furor nas tabelas de vendas, Bowie ainda não é nome que esteja na boca de toda a gente. O calendário de 1972 traz, contudo, novidades: Transformer, destacado disco a solo do guitarrista e vocalista dos Velvet Underground, Lou Reed, é por si produzido; Raw Power, álbum final de Iggy Pop & The Stooges, é editado sob supervisão logística do músico londrino. A santíssima trindade de 1972 completa-se com a edição de The Rise and Fall of Ziggy Stardust & The Spiders from Mars.

Álbum conceptual sobre a carreira de um cantor rock vindo do espaço, Ziggy Stardust alinha musicalmente com o revivalismo rock n’ roll do glam definido por Marc Bolan nos meses anteriores. Mas Bowie, que já experimentara a androginia na capa de The Man Who Sold the World (1970), leva o projecto mais longe: encarna fisicamente a personagem e altera por completo o seu visual, pintando o cabelo de vermelho vivo e envergando roupas extravagantes em palco. Em digressão, Bowie enquanto Ziggy é acompanhado pelos Spiders from Mars (Mick Ronson na guitarra, Trevor Bolder no baixo, Mick Woodmansey na bateria). Da estratégia de promoção do álbum faz parte uma entrevista de Bowie em que este admite a sua homossexualidade (mais tarde corrigida para «bissexualidade»). Ziggy Stardust atinge o 5ºlugar do top, fruto do sucesso de «Starman». A popularidade surge instantaneamente e Hunky Dory, editado um ano antes sem grande proveito, galga terreno nas tabelas.

Bowie ganha, subitamente, o dom de Midas. É, juntamente com Bolan, um ícone estético do glam-rock, apreciado simultaneamente por homens e mulheres, senhor de atitudes ambíguas e com sede de transgressão. Aladdin Insane, composto durante a digressão de Ziggy Stardust, retoma a temática conceptual, concentrando-se agora na «desintegração da sociedade». Ziggy é ainda o protagonista e a posição cimeira do top britânico está-lhe reservada. «Jean Genie» (número rock n’ roll) e «Drive-In Saturday» (balada com reminiscências de 50) mantêm vivo o mito Ziggy e são presença garantida em concertos ainda mais elaborados e excêntricos, que incluem um «strip-tease» e uma propalada simulação de fellatio com a guitarra de Ronson. Bowie parece acreditar, cada vez mais, na sua nova pele, dando entrevistas e conferências de imprensa enquanto Ziggy Stardust. O golpe de teatro é dado a 3 de Julho de 1973 quando, no palco do Hammersmith Odeon, em Londres, Ziggy anuncia o inesperado: «Este é não só o último concerto da digressão como também o último concerto de sempre». O herói está morto, as aranhas regressam a Marte.

Depois de Ziggy, Bowie tornar-se-ia um dos artistas a solo mais bem sucedidos de sempre. Deixa-se seduzir pela soul de Filadélfia em Young Americans (1975); desempenha mais um papel – o de The Thin White Dute – em Station to Station (1976); revela-se simpatizante nazi à Playboy (1976), negando tal afinidade algum tempo depois (culpa do abuso de substancias impróprias, revelaria); muda-se (com Iggy Pop) para Berlim onde abraça a electrónica germânica e o krautrock (Low, 1977; Heroes, 1978; Lodger, 1979), sob alçada de Brian Eno; revisita o major Tom de «Space Oddity» no single «Ashes to Ashes» (número 1 em 1980); grava «Under Pressure» com os Queen (outro número 1); chega ao sucesso planetário com Let’s Dance (1983); integra o elenco de Live Aid (1985); participa em filmes (Ladyrinth, de Jim Henson, 1986, ou Twin Peaks: Fire Walk With Me, de David Lynch, 1992); ameaça o acaso de uma carreira com Never Let Me Down (1987) e uma experiência de uma banda hard-rock com os Tin Machine (1989 e 1991); regressa das cinzas com um tímido Black Tie White Noise (1993) e, mais seguro, com a bem acolhida banda-sonora para televisão The Buddha of Suburbia (1995); toca paisagens industriais no elogiado Outside (1995); recorre ao drum ‘n’ bass em Earthling (1997); intensifica a aposta na Internet (BowieNet em www.davidbowie.com), tornando-se o primeiro artista a disponibilizar conteúdos «on-demand» a troco de uma subscrição. Mais recentemente, resolve apadrinhar os canadianos Árcade Fire, tendo já tocado com a banda e com ela gravado um EP disponível apenas no iTunes.

Marc Bolan – O feiticeiro

Será sempre identificado como a voz e a cara do glam-rock mas a capa pesada de um estilo onde a extravagância era moeda corrente não esconde um reconhecido talento de composição. MARC BOLAN não teve tempo para viver do lado de fora do «glamour».

«Temo que vá morrer num acidente de carro», terá dito uma vez ao fotógrafo Keith Morris, antes de uma sessão fotográfica. Talvez por isso, Morris considere a sua fotografia preferida de Bolan aquela em que o vocalista dos T.Rex dá uma gargalhada ao volante de um automóvel. A premonição materializava-se duas semanas antes do 30º aniversário do artista quando o Mini conduzido por Gloria Jones, a (então) companheira de Bolan e voz de «Tainted Love» (tema que os Soft Cell popularizaram anos depois), embateu numa árvore. Gloria sobreviveria, Marc não.

Na altura da sua morte, Bolan preparava o regresso aos palcos dos T.Rex com os punks The Damned como banda de suporte. A afinidade entre a estrela cadente do glam e uma jovem banda punk recém-chegada à ribalta – «New Rose», dos Damned, é considerado o primeiro single punk – não é tão estranha como pode inicialmente parecer: desprezando a pompa do rock progressivo e das grandes instituições do rock sinfónico, a vaga punk via em bandas como os T.Rex, revivalistas da pureza original do rock n’ roll mas com uma faceta «escandalosa» e transgressora, os poucos exemplares de um passado recente a conservar.

Quando o glam-rock ou a «T.Rextasy» explodem, Marc Bolan está longe de ser um novato na cena musical. O músico, nascido em Londres em 1947, já havia feito parte dos obscuros John’s Children antes de formar os Tyrannosaurus Rex com o percussionista Steve Peregrin Took. «Folk mística» e «música mitológica» são algumas das descrições – tudo culpa de uma visita a Paris, em meados de 67, onde Bolan terá travado conhecimento com um feiticeiro especialista em levitação.

O período esotérico dura 3 álbuns (o primeiro dos quais tem o longo título My People Were Fair and Had Sky in Their Hair But Now They’re Content to Wear Stars on Their Brows) sem reconhecimento comercial mas do conhecimento de John Peel, popular radialista da BBC, que vê no duo algo mais do que uma curiosidade para o meio «underground». Divergências entre Bolan e Took precipitam, no entanto, o abraçar de novos ideários. Bolan contrata Mickey Finn para o lugar de Took e, depois de um primeiro álbum que mantém a designação antiga, abrevia o nome da banda para T.Rex. o abandono da guitarra acústica em detrimento da eléctrica e o desaparecimento da poesia mitológica (com referencias a elfos e unicórnios) encontram maior receptividade no público. «Nunca perdi a minha fé na pop. Esteve sempre aqui. Houve um período mais calmo, florido e pacifico mas já não me sinto mais assim. Não vivemos num mundo em paz. “I want to boogie [ritmo swingante, apelo à dança] ”», declara ao Melody Maker.

Em 1970, os T.Rex assaltam o top 10 britânico com «Ride a White Swan», tema declaradamente eléctrico, produzido por Tony Visconti (ligado a David Bowie mas que, curiosamente, não esteve ligado aos discos glam do artista). Agora com lantejoulas espalhadas na face, Bolan é considerado um ícone do glitter-rock (ou do glam-rock), uma estrela em potência que deixa o campo da contra-cultura para, como os seus ídolos rock n’ roll dos anos 50, chegar ao maior número de pessoas possível. Uma sequência imparável de singles de sucesso dá origem à euforia T.Rex, cimentada pela edição da obra-prima Electric Warrior (1971). «Hot Love», «Get It On», «Telegram Sam» e «Metal Guru» são numero 1 no top inglês.

Os T.Rex são neste momento formados por Marc Bolan (voz, guitarra), Mickey Finn (bongos), Steve Currie (baixo) e Bill Legend (bateria). 1972 é, nas palavras de Tony Visconti, «o ano em que Marc Bolan estava “condenado” a não falhar em absolutamente nada». Os concertos são electrizantes, a euforia adolescente impressiona (Born to Boogie, o filme de Ringo Starr, regista um fenómeno próximo da «Beatlemania») e Bolan, súbito líder de uma nova ordem, observa confiante o teatro perfeito da sua «personna». Ícone sexual, músico admirado, poeta sensível – que mais o rock poderia desejar nesta altura?

O caminho descendente é doloroso. A formação clássica da banda desmembra-se em 1973, o casamento de Bolan com June Child (secretária do manager de Syd Barrett, uma das maiores inspirações de Bolan) segue o mesmo caminho. Álbuns e singles continuam a sair a um ritmo frenético mas com menor impacto. Ronan Bolan, filho de Marc e da cantora soul Gloria Jones, nasce em 1975. Não veria o pai por mais de dois anos.

Selecção Glam Rock

T.REX

ELECTRIC WARRIOR (1971)

O preciso momento em que Marc Bolan se despede da penumbra do «underground» para se tornar ícone estético de adulação. «Get It On» e «Jeepster» respondem ao repto «let’s boogie» mas é em «Cosmic Dancer» – cordas solenes de Tony Visconti e um registo vocal em toada inesperadamente intimista – que se ganha um génio.

DAVID BOWIE

THE RISE AND FALL OF ZIGGY STARDUST & THE SPIDERS FROM MARS (1972)

Um extra-terrestre torna-se figura rock estelar em solo terrestre. Canções de um dramatismo teatral como «Five Years», «Starman» ou «Rock ‘n’ Roll Suicide» têm o «glamour» do desajustado. Um marco.

ROXY MUSIC

ROXY MUSIC (1972)

Da tensão entre Brian Eno e Bryan Ferry nasce um encontro feliz entre o «kitsch» e a sofisticação. É o glam a dizer «sim» à escola de arte em monumentos como «Virgínia Plain» ou «2HB».

NEW YORK DOLLS

NEW YORK DOLLS (1973)

Nova Iorque a catalizar o momento glam londrino com o ruído dos Stooges, a ambiguidade de Bowie e a provocação de Mick Jagger. «Personaly Crisis» e beijos no meio do lixo.

 

A Música na Internet Portuguesa

No início, a Internet prometia mundos e fundos, mas o investimento foi maior que o retorno e os sites começaram a fechar. em Portugal, o JORNALISMO MUSICAL ONLINE acusou a crise mas um lento renascimento brota agora de um laptop no conforto do lar. 

Os últimos anos da década de 90 foram de investimento desenfreado no negócio digital. A Internet era, então, uma novidade apresentada como solução milagrosa para a modernização empresarial e, em Portugal, o súbito aparecimento de sites que abordavam o fenómeno musical oferecia ilusões de prosperidade. Foram criadas empresas de consultoria digital, de construção de «websites», de integração de diversos serviços. Implantaram-se as edições digitais dos grandes jornais, fundaram-se empresas com sede unicamente na Internet e gerou-se, durante alguns anos, a convicção de que era possível escrever sobre música de forma sustentada sem ser em papel de revista ou jornal. Surgiram sites especializados, com ênfase na componente noticiosa; outros que apostavam na crescente integração de áudio e vídeo; outros ainda mais abrangentes em que a música era apenas uma das facetas exploradas.

Faliram quase todos.

A indústria discográfica – ainda presa a um suporte físico e a uma burocracia pesada – tardava em perceber o impacto da revolução digital. Das grandes aspirações do final da década anterior resta agora um par de sites comerciais e, fora da alçada empresarial, uma atitude mais individualista, assente no «faça você mesmo» e em apertada economia de meios. São os outrora leitores/frequentadores de sites desaparecidos comoMusicnet, Netparque e Rádiopirata ou moribundos como o Voxpop, a empreender o seu próprio projecto, baseado numa estrutura não-empresarial e, na maior parte dos casos, sem expectativas receitas. Preside o amor à causa e a satisfação de suprir lacunas dos grandes media. A liberdade, dizem os protagonistas, é hoje maior.

«Se não tens lugar, cria outra coisa»

Tudo começou assim, em 1997: «Um grupo de pessoas que desenvolviam conteúdos multimédia para uma revista de então, a Cyber.net, teve a ideia de construir um site de informação musical. Reuniu-se o patrocínio de duas ou três marcas, com maior destaque para a Super Bock, e aí estava a Musicnet». Assim nasceu, nas palavras de Vítor Junqueira (editor do site entre 1998 e 2002), «o primeiro projecto português de comunicação social desenvolvido exclusivamente em plantaforma online.»

Ao longo das várias etapas da sua existência, a Musicnet dispôs de rubricas de informação, critica, reportagem e entrevista, bem como um fórum de discussão e um directório de bandas de garagem que ali poderiam alojar informação biográfica e música em formato digital. Alem da actualização diária, Junqueira destaca  o «enfoque dado à multimédia, isto é, aos extratos de música que eram, então, o “último berro” na Internet [a massificação do formato MP3 só se regista em 1999]. De início até contávamos com um sonoplasta [Tiago Lopes, músico dos Golpe de Estado]».

Inicialmente ligada ao Grupo Fórum, a Musicnet passou, no principio da décda, para as mãos do portal Terràvista (plantaforma do Ministério da Cultura que permitia o alojamento gratuito de páginas web) e, posteriormente, para o portal ya.com, fruto da aquisição do Terràvista pela espanhola T-Online (ligada à empresa telefónica Jazztel). «Aí sim [2001] começou a haver outro tipo de exigências até porque na altura do projecto vingar ou então acabar, depois de anos a ter prejuízo». Já sem Junqueira ao leme, a Musicnet viria a desaparecer da rede em Setembro de 2002.

Entrando em cena na segunda metade de 1998, o site Rádiopirata tem uma história diferente com um final semelhante. Luís Bento, fundador e editor do projecto até ao seu termo (2001), descreve-a sem disfarçar uma certa nostalgia: «Tinha terminado o Secundário e passei grande parte das férias a vaguear pela Expo 98. experimentei escrever sobre um concerto dos Primitive Reason no saudoso Palco 6 e esse texto foi publicado na Musicnet, na altura o único site português dedicado à informação e crítica musical generalista. Perguntei se precisavam de colaboradores, foi-me dito que em Lisboa já tinham gente suficiente. “Se não tens lugar no que existe, cria tu outra coisa”, pensei. E depois de uma conversa com o Luís Soares, então Presidente da Associação Terràvista, desenhámos rapidamente o esqueleto de uma página. Após cinco horas em frente a um PC estava criada a primeira versão da Rádiopirata, actualizada diariamente a partir de casa dos meus pais».

Os tempos corriam de feição e, em 1999, a Rádiopirata torna-se o canal de informação musical do Terràvista. Tudo, por esta altura, «parecia fácil e até havia algum dinheiro para investir». A diferença da Rádiopirata face à Musicnet passava pela não-profissionalização dos seus colaboradores (o espírito do Terràvista incentivava a participação do leitor no produto final). Mas, por esta altura, o site não se limitava apenas ao jornalismo escrito. A transmissão de eventos em directo passa a ser um trunfo: «Em Abril chego à Pòvoa de Varzim munido de um portátil e de um modem manhoso para transmitir a edição em directo desse ano do Festival Cais do Rock, uma experiência que não correu muito bem mas que serviu para aprender que uma linha telefónica normal não era opção viável para transmissões, por exemplo. Fez-se a transmissão directa de grande parte dos concertos e entrevistas com as bandas, mesmo assim». Bento confessa não perceber como é que, ao cabo de mais de meia década e com infra-estruturas amplamente superiores, não se voltou «a pegar nisto». Até porque há meia década atrás, com parcos meio técnicos, a Rádiopirata efectuou «dezenas de transmissões: do Lux, Aula Magna, Coliseu, lojas Virgin e Fnac». Os pontos altos, recorda, «foram a transmissão em directo do concerto dos Lamb na Aula Magna e dos Gift no Coliseu dos Recreios, ultrapassando cada um a centena de ouvintes simultâneos, o que para a altura era óptimo». Mas não só. «Alojávamos programas de rádio que já tinham passado em rádios “on air” mas, melhor ainda, havia quem gravasse horas de música e locução em casa e nos enviasse para colocarmos disponível. Juntando isto a gravações de concertos e sets DJ em “streaming on-demand”, tínhamos centenas de horas de som gravado. A ideia era termos mesmo uma rádio online, mas nunca chegou a concretizar-se».

A Rádiopirata viria a desaparecer em 2001, aquando da aquisição da Associação Terràvista pela Jazztel, que já detinha o Grupo Fórum, responsável pela Musicnet. «Só havendo lugar para um dos sites, ficaram com a Musicnet, que acabou por transformar-se em repositório de “press-releases”. A Associação Terràvista passou a Associação para a Fronteira Electrónica, com objectivos muito diferentes. Rapidamente se percebeu que para ter lugar ali, a Rádiopirata teria de mudar radicalmente. Não estava disposto a isso, voltei a estudar e a coisa ficou por aí».

Em 2000 surgia, por iniciativa do Parque Expo, o site Netparque, projecto ambicioso que recrutara vários elementos aos meios de comunicação social «offline» e que dispunha de uma aguerrida secção musical, onde pontificavam profissionais com carreira feita no BLITZ como Pedro Gonçalves e Jorge Manuel Lopez. A euforia inicial esbarrou, noentanto, na progressiva desconfiança do sector económico (e, consequentemente, do mercado publicitário) face ao negócio online. Afogado numa estrutura desfasada dos novos condicionalismos (agravados pela crise despontelada pelos ataques terrosristas de 11 de Setembro de 2001), o site viria a fechar portas em Julho de 2002, mantendo o seu acervo online até há bem pouco tempo. Também o site musical da Yorn (da actual Vodafone) teve vida curta. Nele colaboraram Vítor Belanciano (jornalista do Público) e Raquel Pinheiro (ex-colaboradora do BLITZ e há vários anos editora da revista Mondo Bizarre). Ligado às lojas Valentim de Carvalho, o Voxpop (ainda existente, num formato radicalmente mais modesto, em www.voxpop.pt) completa o leque, contando como principal redactor o actual colaborador do BLITZ Gonçalo Palma.

«Para tudo falhar basta perder um patrocinador»

Vítor Junqueira, com formação académica em Economia, avança as razoes do declínio: «Ao início queixávamo-nos de que havia pouca gente ligada à Internet. Era algo exclusivo de alguns estudantes universitários com conhecimentos de informática. Ou havia logo à partida um patrocínio que aguentasse o projecto, que foi a sorte inicial da Musicnet, ou então teria de haver um investimento avultado em capital de risco durante meses ou anos. Esta segunda hipótese foi a aposta de alguns investidores de então, que produziram projectos para poderem vir mais tarde a rentabilizá-los nos chamados IPOs (colocação em bolsa das empresas, já que o mercado accionista tinha um certa apetência pelas novas tecnologias).

Filipe Rodrigues da Silva, actual director do Diário Digital e antigo editor do Disco Digital (subsite de informação musical do Diário Digital, criado em 2001 e ainda no activo, em www.discodigital.pt) imputa culpas à especulação em torno da Internet: «Envolvia empresas que nada tinham a ver com os media e que não tinham o poder de uma Media Capital ou do grupo Impresa para suportar prejuízo durante algum tempo confiante em retorno no futuro».

Deficiências tecnológicas estão também entre as causas da regressão: «Na altura, quase todo o acesso nacional era analógico, através de modems lentos. Os computadores eram caríssimos». Junqueira acrescenta o temor da indústria musical: «Notava-se que as editoras e promotoras de concertos tinham, boa parte delas, uma enorme desconfiança em relação à Internet . se não estou em erro, nenhuma tinha sequer presença na Internet, algo que hoje seria impensável. Havia editoras que não trabalhavam connosco porque já havia um grande receio em relação à pirataria online». O director do Diário Digital concorda: «em 2000/2001 a música na Internet era já uma realidade corrente, com os downloads, mas era uma coisa que assustava. Era a anarquia. Assustava as empresas, as editoras discográficas e o público». Luís Bento, da Rádiopirata, lembra que a noção de P2P [«peer-to-peer» ou partilha de música na net] existe desde 1999, com o aparecimento do Napster».

Em situação de crise económica, a sobrevivência dos sites começa, no entender de Filipe Rodrigues da Silva, a depender sempre das mesmas condições: «houve erros de avaliação em todo o lado, inclusive no Disco Digital. Primeiro pensava-se que eram precisos dez jornalistas, depois concluiu-se que bastariam dois ou três, durante um ano e meio fez-se tudo com apenas um, que era eu. Para um projecto destas falhar basta um patrocinador ou uma publicidade desaparecer e fica-se logo a pensar no que se vai fazer amanhã».

«”Isso é uma coisa muito complicada!”»

Luís Bento lamenta as difíceis relações entre o site Rádiopirata e o meio musical: «Das promotoras de concertos ouvi várias vezes a pergunta “se és duma rádio precisas de um fotógrafo para quê?” De início houve vários concertos que só foram transmitidos porque não falámos com ninguém cá. Os escritórios das multinacionais em Portugal tinham sempre preparada a resposta “isso é uma coisa muito complicada”. Com os DEUS no Coliseu dos Recreios [1999] falei só com o “management” da banda e passei por cima de tudo o que era organização local, algo que, embora tenha resultado, não gerou grande amizade [com os representantes nacionais]».

Especializar é preciso (os sites da diversificação)

 

Os sites especificados em géneros musicais são, cada vez mais, locais de convergência entre fãs e músicos, destacando-se o papel pioneiro do Punk PT (www.punkpt.com) dedicado ao punk de produção nacional e do Hip Hop Tuga (www.h2tuga.net), consagrado à cultura hip hop (graffiti, breakdance, rap). As denominadas músicas do mundo têm no At-Tambur (www.attambur.com) um ponto de encontro e uma fonte de informação bastante completa (por exemplo, sobre a origem dos instrumentos tradicionais).

A disseminação do formato blog fez nascer projectos que, de outra forma, poderiam ficar na gaveta por inexistência de conhecimentos técnicos. Luís Rei, jornalista, é o autor do blog Crónicas da Terra (crónicasdaterra.weblog.com.pt), um site de «divulgação de músicas locais, desde a recolha etnográfica à fusão de músicas de orientação clássica com electrónicas, rock, jazz, etc.». A página, iniciada em 2003, é uma extensão de «um projecto de há 10 anos (…) com a emissão “Terra Pura” na [extinta] rádio XFM». Depois da residência no seio da desaparecida Musicnet, as Crónicas da Terra mantêm o formato blog mas pretendem evoluir para portal. Neste momento, podem também ser ouvidas em audioblog, num curioso regresso à sua existência original, agora em sede online.

Integralmente dedicado à música moderna portuguesa (à semelhança do que acontece com o blog A Trompa – atrompa.blogspot.com), o site Divergências (www.divergencias.com) é já um veterano na web nacional. Fundado em Setembro de 2001 por «dois jornalistas, um fotógrafo e um webmaster/designer», nasce com o objectivo de tratar música portuguesa que está para além «do Abrunhosa ou dos Madredeus, divulgando sobretudo bandas portuguesas sem representação nos media generalistas». Mais recentemente, o Divergências conheceu uma versão televisiva, tendo produzido conteúdos para o programa «Ultra Sons», da RTP-N. Jorge Oliveira, jornalista da RTP-Porto e um dos fundadores do site, salienta a longevidade do programa (esteve no ar um ano e um mês) mas lamenta que a estação não tenha sabido fidelizar o público, «ao mudar-lhe constantemente o horário». No currículo do Divergências consta também a edição de uma compilação, Divergências.com, que reúne «18 bandas de vários géneros musicais», algo que Oliveira espera repetir em 2006.

 

Os Sobreviventes (os sites comerciais que ainda persistem)

 

Atravessando a crise económica (e de descrédito da viabilidade dos negócios digitais), dois sites generalistas com estrutura empresarial continuam a dar música, por escrito (e não só), aos internautas. O Cotonete, que arrancou «um dia antes do 11 de Setembro de 2001», dispõe de «uma estrutura própria com coordenação, jornalistas, web-designers, programadores, equipa de áudio e produtores de conteúdos». Para além de informação escrita, este site do grupo Media Capital aposta forte na componente áudio – com rádios temáticas e canais personalizáveis «sem limitações de “playlist”», Ana Ricciardi, coordenadora do projecto, reconhece que, no início, «as coisas não correram de acordo com as expectativas». Isto porque o início do Cotonete coincide com «uma crise generalizada de investimento publicitário». Uma das maiores apostas do site para 2006 reside na rápida expansão do «podcast» (emissão gravada de programas radiofónicos, cuja produção está ao alcance de qualquer utilizador). À semelhança do que aconteceu com os blogs (em relação à escrita na Internet), o «podcast» promete reconfigurar a noção de áudio na rede, «mesmo que estejamos ainda numa fase em que há mais gente interessada e criar os seus próprios “podcasts” do que em consumi-los».

Também o Disco Digital é passageiro de uma pequena embarcação com os sobreviventes da razia de 2000/2002. Inicialmente, as expectativas eram grandes já que o projecto, de acordo com Filipe Rodrigues da Silva (à época redactor da casa-mãe, o Diário Digital), «era para ser muito maior porque nasceu na altura do “boom” da net». A primeira encarnação do site nunca esteve, porém, online. «Foi um nado-morto. Com a chegada da crise, dá-se uma série de despedimentos no Diário Digital (…) e o que era para ser feito por 10 pessoas passou a ser feito apenas por uma».

O Disco Digital é hoje fornecedor de conteúdos para o portal Sapo e apresenta uma selecção alargada de informação musical, alargando o seu espectro ao cinema e ao DVD.

Luís Guerra (BLITZ – 18 Outubro 2005)

Concursos de Bandas

Não são provas de beleza mas as selecções de novas bandas – entre concursos, festivais e compilações – servem como um grande passaporte para sonhar. Um negócio ou um mar de possibilidades?

 

A existência de uma banda em Portugal não é fácil. Procuram-se contactos, gravam-se maquetas, sonha-se com um futuro à disposição de todos mas concretizado por poucos. Faltam apoios de divulgação, acusam muitos. Os media não dão à música portuguesa a atenção devida: a imprensa relega os projectos nacionais para segundo plano, as rádios não lhes dão o airplay devido (com ou sem quotas de mercado), a televisão é parca (ou nula) em programas que apresentam novas apostas. Como sobreviver e vingar? Na maioria das vezes, o futuro parece estar à distancia de um concurso, onde os prémios podem oscilar entre actuações em festivais ou gravações de discos. A única questão é que nenhum concurso funciona como analgésico instantâneo que solucione todos os percalços de caminho. E nenhum festival, concurso ou colectânea de novos talentos é sinonimo de sucesso imediato.

Há, no passado recente, bons exemplos e outros longe de cenários idílicos. O inicio da época de festivais de verão marca também a abertura da caça aos talentos, este ano com dois concursos «concorrentes» – o Super Bock Preload e o TMN Garage Sessions. O que podem esperar as bandas que neles participam? Quais são os exemplos no passado? Que futuro pode a publicidade reservar à existência de uma banda? Respostas já a seguir.

O Passado

 

SUPER NOVAS BANDAS E COMPILAÇÕES OPTIMUS

Ao longo de três anos, Paulo Ventura assegurou a realização do Super Novas Bandas, iniciativa inserida no Super Bock Super Rock, com grupos a serem escolhidos para actuar em concertos inseridos no próprio festival; ao longo de três anos, Ventura foi também o impulsionador das compilações de bandas novas Optimus 2000, Optimus 2001 e Pop Up Songs. No entanto, os caminhos das duas iniciativas só pontualmente se cruzaram: «As bandas que participaram no Optimus não tinham obrigatoriamente participado no Super Novas Bandas – eu pedia maquetas para uma coisa e para a outra. Eram coisas distintas». Mas o ponto de partida era o mesmo: a recepção e audição de muitas maquetas, para escolher «os artistas mais consentâneos com as expectativas que tínhamos».

Nenhum destes projectos tinha uma vertente de concurso, com vencedores ou prémios, mas ambos abriam possibilidades de futuro aos participantes: «Nestas iniciativas, as coisas não se podem cingir a fazer um concurso ou a compilação ou pôr as bandas a tocar umas contra as outras. Mais do procurar o talento dos artistas, tens que procurar estruturas que suportem esse talento. O Super Novas Bandas estava integrado no Super Bock Super Rock com promoção assegurada pela Música no Coração. O Optimus tinha uma estrutura muito mais intricada e por isso dava mais retorno às bandas – tinha os palcos Optimus nos festivais, uma digressão, parcerias com media…».

Segundo Paulo Ventura, foi graças a toda a estrutura que as compilações Optimus tinham à sua volta que estes discos se tornaram o ponto de partida para «a grande fornada de bandas com sucesso que apareceu nos últimos anos» – das três compilações editadas saíram 19 projectos com discos gravados, entre os quais Gomo, Toranja, Mesa, Loto, Balla, Bunnyranch e Plástica. «De repente geraram-se talentos novos, com exposição à séria». Com tanto sucesso, será o caso para questionar a paragem da iniciativa. Segundo Ventura, as razoes são simples –  num mercado pequeno, como o português, «não se pode estar constantemente a despejar talento».

TERMÓMETRO UNPLUGGUED 2005

Ao contrário do que é habitual, no Termómetro Unplugged não foi o concurso que deu novos caminhos às bandas, mas sim o contrário. É isso, pelo menoos, que considera Fernando Alvim, o radialista criador e mentor do concurso, em actividade desde 1994. «Passou-me pela cabeça fazer algo útil – fiz o Termómetro Unplugged. O que não estava à espera é que a primeira banda que ganhasse o festival – os Blind Zero – se tornasse tão grande». Segundo Alvim, foi a notoriedade alcançada pelo grupo de Miguel Guedes – vencedor da mesma edição em que participaram, por exemplo, os Ornatos Violeta – que catapultou o concurso. «A verdade é que, sobretudo nos três primeiros anos gloriosos do Termómetro, acertámos em duas grandes bandas: nos Blind Zero e nos Silence 4. Mas depois de vencerem o festival as bandas não podem ficar à espera que isso, só por si, seja uma garantia do que quer que seja. Pode ser uma ajuda, pode ser bom, mas não é suficiente».

O Termómetro Unplugged é dividido em três fases: um primeiro momento em que, das maquetas recebidas, são seleccionadas 20 bandas; cinco eliminatórias de onde saem os cinco finalistas; e a final propriamente dita. «O prémio é a gravação de um CD com quatro temas, a oportunidade de gravar um teledisco e uma sessão fotográfica profissional». Em média, Alvim afirma receber, por ano, entre «130 a 140 maquetas. Acabei de seleccionar as 20finalistas para a edição deste ano – e estou muito satisfeito. A menos que as coisas não corram pela lógica que está patente na qualidade das maquetas, acho que a banda vencedora este ano vai ter notoriedade». Para as escolhas, o Termómetro conta com um júri composto por músicos, jornalistas, radialistas e pessoas que não estão ligadas à área da música mas que consideramos terem bom gosto musical. Essas pessoas representam aquilo que denominamos senso comum – que deve estar representado».

O Presente

 

SUPER BOCK SUPER ROCK PRELOAD

Este ano, pela primeira vez na história do Super Bock Super Rock, uma das bandas incluídas no cartaz terá saído não de uma contratação da música no coração, produtora do evento, mas de um concurso de novas bandas, baptizado Super Bock Preload. Segundo fonte da Unicer, contactada pelo BLITZ, esta iniciativa «surge em resposta a dois eixos importantes da estratégia e posicionamento da marca» – por um lado, pretende dar seguimento a uma «estratégia na descoberta de novos talentos» (lançada no ano passado com concursos de design); por outro, a «revelação de novos talentos na área de música». Segundo a mesma fonte, «dar a possibilidade aos jovens talentos de verem as suas propostas criativas trabalhadas e terem uma aplicabilidade pratica e real é uma das vertentes importantes» deste projecto.

O Super Bock Preload tem como base o próprio site da marca, em www.superbock.pt, com o concurso a ser dividido em três fases. Num primeiro momento – a decorrer durante o mês de Março –, as bandas podem submeter as suas candidaturas na página, fazendo o upload das suas músicas e dados; entre 4 e 15 de Abril, é oferecida ao público a oportunidade de votação nas suas bandas/músicas preferidas, também através do site; desta votação sairão 10 finalistas que, de 16 a 30 de Abril, serão analisados pelo júri Super Bock, que escolherá o vencedor.

A mesma fonte da Unicer declarou que a Super Bock lança o Preload por acreditar «existirem no nosso país inúmeras bandas com talento que, pela sua qualidade, gostaríamos de ver subir aos palcos do Super Bock Super Rock», aguardando por isso «uma adesão que vá ao encontro destas nossas elevadas expectativas».

TMN GARAGE SESSIONS

«No processo de desenvolvimento da campanha de lançamento do portal i9, chegámos ao ponto em que tivemos de decidir qual a música a utilizar. Quisemos procurar uma sonoridade que potenciasse o espírito da campanha e pensámos em varias hipóteses. Mas, sendo a TMN uma marca assumidamente portuguesa, achámos que ao escolher uma banda estrangeira estaríamos a desperdiçar uma oportunidade de dar voz aos valores nacionais», explica Filipa Nascimento, directora de marketing da operadora móvel. Foi assim que foi escolhida «Daisy», dos EZ Special e, depois da experiência positiva alcançada, a iniciativa repetiu-se este ano de novo com os EZ Special. «Foi esta experiência e a relação que, no processo, estabelecemos com os EZ Special que nos fez pensar que poderíamos alargar este projecto e estruturá-lo de forma a apoiar tantos outros talentos escondidos que sabemos que existem», explica Filipa Nascimento.

O Garage Sessions assume-se como uma pareceria entre a TMN, a produtora Música no Coração e a editora EMI, estando o prémio dividido pelas três entidades: a utilização de uma canção numa campanha da operadora, a actuação no palco principal do Sudoeste 2005 e edição de um disco. No concurso podem participar bandas ou artistas que não tenham contrato discográfico, apresentando duas canções originais e uma versão.

Segundo Luís Montez, da Música no Coração, o conceito é simples: criar «um concurso no sentido de todos os anos se eleger um novo grupo que tenha visibilidade não só nas campanhas da TMN como também nos meus festivais». Montez buscou estruturas que tornassem esta iniciativa um projecto ainda mais forte: «Fui buscar uma editora que tem dado provas de apostar a sério na música portuguesa, a EMI – convidei o Paulo Junqueiro [A&R da editora] que, desde o princípio, abraçou a ideia. Depois trouxe o BLITZ e o Diário de Noticias e as rádios Radar e Oxigénio – são estas pessoas que vão dar a cara em termos de divulgação das bandas, das maquetas, dos seleccionados. A ideia é criar um concurso credível para que, de facto, quem sair daqui tenha pernas para andar», explica.

As inscrições para o TMN Garage Sessions podem ser feitas na página da marca – www.tmn.pt/garage_sessions.shtml -, onde o regulamento pode também ser consultado. Os projectos inscritos serão analisados por um júri devidamente identificado – que integra jornalistas, profissionais da rádio e editores discográficos – que escolherá as 20 finalistas, que actuarão num espectáculo. O público terá oportunidade de acompanhar e avaliar os vários candidatos através do site, podendo votar nas preferências através de SMS. «O que, na minha opinião, distingue este projecto de outros do mesmo género é precisamente esta preocupação em acompanhar e projectar a banda vencedora, mesmo que depois de terminado o concurso», conclui Filipa Nascimento.

 

Os Anúncios

 

O concurso TMN Garage Sessions oferece à banda vencedora a utilização de um tema na banda-sonora de uma campanha de televisão. Mas a exposição maciça em anúncios de televisão reflecte-se realmente em vendas de discos? Paula Homem, A&R da Universal Music, teve cinco artistas em anúncios nos últimos meses – David Fonseca, EZ Special, Gomo, Toranja e os distribuídos Gift – e sentiu maior retorno comercial nos Toranja, embora não possa atribuir o sucesso do álbum Esquissos exclusivamente à utilização de «Carta» num anúncio institucional da Caixa Geral de Depósitos. «O sucesso tem também a ver com a conjuntura da altura» – o tema estava igualmente incluído numa telenovela – «mas o anúncio só esteve um mês no ar e sentimos efeitos nas vendas». Também no caso dos Gift, que surgiram com «Driving You Slow» numa campanha da Vodafone, «toda a estratégia de lançamento [do álbum AM-FM] foi montada à volta do anúncio, que ajudou muito». Já em relação aos restantes artistas confessa não ter visto resultados: «Quando se negociou com a Vodafone, já o álbum do David Fonseca tinha saído. Não senti que as vendas tenham passado pelo anúncio, não incrementou nada. Não vendemos mais um disco dos EZ Special por causa dos anúncios da TMN, mas eles ganharam muito em concertos, tocaram muito ao vivo nesse ano. Em termos de visibilidade, ter uma banda num anúncio pode ajudar muito – não vendi mais discos com o Gomo», que viu «Feeling Alive» usado numa campanha CGD, «mas senti que chegou a mais pessoas».

Essa é também a opinião de Ricardo Ferro, A&R da Zona Música, relactivamente aos Zedisaneonlight, presentes num anúncio da Sumol – não sentiu «um retorno tão grande em termos de vendas, mas a banda ganhou, por exemplo, em termos de concertos». Já com os Fingertips, a sua presença na campanha da Super Bock foi uma grande ajuda para o álbum All ‘Bout Smoke ‘n’ Mirrors estar quase na marca de Disco de Ouro, embora sublinhe que «não é só o anúncio que conta».

É precisamente o facto de o anúncio em si não chegar para fazer um êxito que Pedro Azevedo, director de marketing da Som Livre, sublinha, a partir da experiência com os Plaza, cujo single «On The Radio» foi usado em anúncios da TMN. A ideia da editora era reapresentar o tema à rádio depois da campanha, «só que, depois do anúncio, as rádios continuaram a dizer que não», e, sem airplay, as vendas não descolaram. «Continuo a achar que é uma excelente maneira de chegar a muito mais gente, mas só faz sentido se após ou durante a campanha a música estiver a tocar nas rádios. Aí acredito que haja um bom retorno». Paula Homem tem melhor experiência com os EZ Special, cujo novo single «My Explanation» está a ser usado num anúncio da TMN – «o anúncio começou antes de escolhermos o single e, quando chegámos à rádio, as pessoas já conheciam a canção». Já Pedro Azevedo vai repetir a tentativa em breve com o lançamento dos Plot, «uma banda que nos chegou já com uma música colocada numa campanha da Vodafone e cujo álbum vamos distribuir em breve». Mas a responsável da Universal não esconde a sua apreensão – «começa a existir a tentação de colocar músicas em anúncios, porque os Toranja deram certo e de repente é a solução perfeita, quando deve ser um último recurso. Há bandas que nunca me passaria pela cabeça colocar num anúncio».

Os Exemplos

 

Ainda que as expectativas que levam uma banda a participar num concurso sejam normalmente as mesmas – a busca de visibilidade, o início de uma carreira –, a verdade é que os resultados nem sempre são iguais e vencer um concurso pode não trazer grandes vantagens. É o que podem dizer os Civic, que, no ano passado, venceram o concurso Objectivo Rock in Rio Lisboa e abriram as hostilidades do Palco Mundo a 4 de Junho. «O prémio era a actuação no Rock in Rio e a edição de um DVD com a actuação. O DVD deve estar à venda durante esta semana. Teve algum atraso – as coisas não são bem como as pessoas pensam. Não é tudo um mar de rosas», conclui Chikko, um dos elementos do grupo.

«Estávamos à espera que houvesse mais portas a abrirem-se. Não fomos nós para lá com falsas expectativas: sabíamos que aquilo era um dia, não pensávamos que nos íamos tornar estrelas. Fomos pelo concerto – um concerto especial, claro; tocámos e ficámos à espera. Mas as coisas atrasaram-se: as pessoas não se mexeram com a rapidez que deviam para aproveitar a situação de termos estado lá, enquanto ainda se lembravam de nós. Deixou-se passar o vibe, quase só um ano depois é que sai o DVD e nunca se pensou arranjar um álbum para a banda». A estreia do grupo sairá mas a extensas próprias. Segundo Chikko, «isto devia ter sido conciliado a partir do momento em que se soube que tínhamos ganho, para tentar fazer logo alguma coisa, para que pouco tempo depois do Rock in Rio a banda tivesse alguma coisa para apresentar». Por terem vencido o concurso, além da experiência, pouco mais levam. «Continuámos com trabalhos extra para pagar as contas, os concertos não aumentaram, arranjámos concertos como sempre tínhamos arranjado. O último foi em Outubro».

Mas há o reverso da medalha: algumas das mais importantes novas bandas no panorama actual saíram de iniciativas de procura de novos talentos. Para os Mesa, tudo começou através de uma maqueta entregue a Henrique Amaro, da Antena 3, «que depois chegou às mãos do Paulo Ventura», explica JP Coimbra. É a partir daí que os Mesa surgem Super Novas Bandas e, mais tarde, na compilação Pop Up Songs. «Divagadora» «rodou imenso na Antena 3 e isso chamou a atenção das editoras para o nosso trabalho. E abriu-nos portas para a edição do primeiro disco».

Experiência semelhante teve Gomo, que considera que o simples facto de ter tido uma canção incluída numa compilação Optimus teve repercussões imediatas: «O Paulo Ventura comunicou-me que podíamos ir para a estrada com o projecto Optimus – como é óbvio, isso interessou-me mas colocou-me numa situação quase de pânico, porque na altura não tinha ninguém a trabalhar comigo. Imediatamente vi-me na estrada a tocar – e logo nos principais festivais de Verão. Fomos a Paredes de Coura, Vilar de Mouros e Sudoeste: claro que foi no palco secundário mas para quem tinha apenas cinco temas foi fantástico. E esses foram os primeiros concertos que demos». Também para JP Coimbra «é importante ter a hipótese de se fazer uma digressão onde se exponha a banda. Nem todas as bandas têm essa hipótese». «Acho que nestes casos as bandas devem aproveitar o empurrão – que é sempre bom – e a partir daí começarem a mexer-se. Isto não passa de um empurrão e soas bandas que começam a trabalhar a partir daí, aproveitando a visibilidade que conseguiram, é que acabam por vingar», conclui Gomo.

Mas no percurso de Gomo surge ainda outro momento de viragem: quando o primeiro single de Best Of é usado numa campanha publicitaria da Caixa Geral de Depósitos. Segundo o autor de «Feeling Alive», «um anúncio de televisão é neste momento a coisa mais importante para promover uma banda a nível nacional – é óbvio que isto pode causar alguma discussão, mas no país que temos e com a televisão que temos, esse meio é muito importante. Sempre que a música passa na televisão, entra nos ouvidos. As próprias imagens ajudam – muitas vezes, as bandas não podem fazer um teledisco mas um bom anúncio pode servir». A sua experiência é paradigmática: «Durante dois meses tentei pôr a minha música a tocar nas rádios e não consegui; imediatamente a seguir ao anúncio as pessoas começaram a perguntar que música era aquela, a ligar para a Caixa Geral de Depósitos, para as rádios. E foi assim que o “Feeling Alive” começou a passar nas rádios. As repercussões foram imediatas. Tinha vendido muitos discos de início – pela promoção da imprensa – mas para chegar ao grande público, se não fosse pela publicidade, o “Feeling Alive” nunca tinha tido os resultados que teve».

 

reportagem: Ana Ventura, com Jorge Mourinha (BLITZ – 15 Março 2005)

O Fã e o Heavy Metal (por Ricardo Campos)

O fã é tudo para o sucesso de uma banda, que por sua vez se utiliza, além da música (e estilo), de outras formas para conquistá-lo, fazendo com que haja uma identificação pelo visual, temática das letras e postura no palco.

O Heavy Metal (em todas as suas ramificações) é um dos estilos onde marcam presença os fãs mais ardorosos, que encaram a música que ouvem como algo além de uma simples diversão, caracterizando-a como um verdadeiro modo de vida, quase uma religião – leia-se a frase presente na capa do mais recente álbum solo do vocalista Udo Dirkshneider (ex-Accept), Holy, "Heavy Metal is our religion".

Quer um exemplo que prove isso? A longevidade do estilo. Se não fosse o apoio irrestrito dos fãs, não teríamos bandas completando três décadas de existência.

Muitas bandas de diversos outros estilos emplacam "na moda", por intermédio das grandes gravadoras e, conseqüentemente, a mídia de massa, mas têm uma durabilidade duvidosa, pois o público alvo não se torna verdadeiramente fã. Isso ocorre porque estas pessoas não têm a música como uma das coisas prediletas, e a utilizam apenas como forma secundária de diversão, ou ainda como uma fonte de popularidade, para ficarem "na moda". Quando muda a tendência, essas pessoas também mudam, e as bandas viram lembranças. Não me refiro apenas ao Pop (nacional ou internacional), pois mesmo dentro do Rock tivemos um exemplo claro, ocorrido na década de noventa com o Grunge, que teve uma duração muito curta depois de atingirem o ‘mainstream’.

Hoje temos algumas bandas, erroneamente enquadradas no Heavy Metal (as próprias desprezam o estilo), que correm um sério risco de serem as novas vítimas do ‘mainstream’. Até aí, tudo bem, pois estão ficando milionárias e se vão desaparecer ou não, será como uma conseqüência do estilo que resolveram adotar. O grande problema disso tudo, é que existem certas bandas (inclusive na cena nacional), que consolidaram a sua carreira junto com os fãs de Heavy Metal, mas estão se rendendo ao "que está na moda", com o claro objetivo de obter maior popularidade, vender mais. Porém, o fã de uma banda Heavy Metal, quer vê-la tocando Heavy Metal, e não outra coisa. Além do risco de perder os fãs já conquistados, os que se aventuram por estes caminhos ainda podem não conseguir nada com a nova roupagem (pois não é o que sabem realmente fazer, sendo guiados pela conta bancária) e desaparecerem de cena.

O Metal God, Rob Halford, quase se deu mal, mas teve muita sorte. Consolidou a sua carreira em quase duas décadas com o Judas Priest, saiu da banda, montou o incrível Fight e depois se aventurou com o Two, projeto completamente eletrônico que resultou no álbum Voyeurs, não dando em nada. Halford foi sortudo por ter conseguido uma volta triunfal ao Heavy Metal, com o magnífico Resurrection (e agora o ao vivo Live Insurrection). Num primeiro momento, alguns dos ex-fãs "torceram o nariz", mas depois se renderam a magnitude do trabalho.

Ainda podemos citar o Grave Digger (que na época mudou o nome para Digger), com o mal sucedido War Games e o Celtic Frost, com o renegado Cold Lake. Mas estes são raros exemplos, pois da mesma forma que os fãs veneram uma banda (ou artista), se traídos, a repudiam.

O Brasil é o país favorito (ou um dos mais visados, por aqueles que ainda não vieram) da maioria das bandas de Heavy Metal estrangeiras, pois somos os fãs mais ardorosos do mundo, por excelência. Mas nem tudo é elogio, pois grande parte dos fãs do estilo ainda pecam, ao desvalorizar o que temos aqui, com aquele desprezível e equivocado estigma de que "banda nacional não presta", valorizando apenas as maiores, como, por exemplo, Sepultura, Angra, Korzus e Krisiun.

Entre os anos de 1997 e 2001, muitas gravadoras (Die Hard, Hellion, Megahard, Destroyer, Demise, entre muitas outras) começaram apoiar de forma muito satisfatória muitas bandas brasileiras, fazendo com que elas aparecessem mais no mercado, coisa que esteve apagada durante a década de noventa. A esmagadora maioria das bandas com que estas gravadoras trabalham são de qualidade indiscutível e só não crescem ainda mais devido ao preconceito de alguns.

Como exemplo, cito alguns dos ótimos lançamentos que já conferimos neste ano: Strava do Heaven’s Guardian, Only Death Is Real do Apocalyptic Raids, The Symphony Goes On do Liar Symphony, Inside Your Soul do Hangar, Timless Realm do Akashic, Discord do Subtera, The Return Of The Southern Tyrants do Nocturnal Worshipper, Legacy Of A Time do Engrave, Tales Of Avalon – The Terror do Dark Avenger, Annihilation do Rebaelliun, The Strongest do Panzer, além de muitos outros álbuns merecedores de toda a atenção.

Ainda estão por vir, que já passaram pela minha audição e assino a qualidade, os incríveis álbuns The Nightmare Continues… do Monster e The Unholy Spell do Torture Squad, sem falar na obra prima Willian Shakespeare’s Hamlet, um grande projeto da Die Hard composto por bandas nacionais e participações especialíssimas. Quem fala mal, deveria procurar ouvir melhor o que temos por aqui…

Outro grande problema que as bandas reclamam, focalizando a capital paulista, é onde tocar. Existem, sim, locais para as bandas se apresentarem, como por exemplo o tradicionalíssimo Black Jack, a Led Slay e a Fofinho, mas o detalhe é que, na maioria das vezes que são marcadas bandas de som próprio, o público não comparece de forma satisfatória – e quando são bandas covers, lotam. Isso é errado, pois os fãs paulistanos deveriam apoiar mais as suas bandas, não apenas comprando os CDs, mas marcando presença nos shows. Se é possível pagar entre 40 e 70 reais para ver bandas internacionais como Rhapsody, Judas Priest, Savatage e outros, custa desembolsar entre 5 e 10 reais para ver uma banda nacional? Acho que não.

O exemplo é dado por cidades como Goiânia, Fortaleza, Florianópolis e Curitiba, só falta os fãs de São Paulo se conscientizarem e resolverem seguí-lo, pois se a banda tem boa qualidade e uma postura convincente no estilo adotado, o fã é o único responsável pelo seu sucesso.

Perfil dos Downloaders

O mundo já nasceu empacotado e os utentes dos ficheiros áudio não escapam a esse destino.

Retrato-robô das quatro principais subespécies.

 

NERD

Se tivesse dinheiro comprava aquela tralha toda para embelezar o seu leitor de MP3, dos auscultadorezinhos de edição limitada em tons de branco glaciar (não confundir com o branco envernizado Cin), à capinha em vinil especial para que o iPod não se constipe.

Como só conhece os adereços de vista, e nem sequer tem iPod para proteger da gripe, lá vai sonhando enquanto folheia a Wired no quiosque no centro comercial e descarrega as reedições dos Pavement para o leitor de MP3 que comprou nos saldos da Worten com o dinheiro que os avós lhe deram no Natal. Os dois amigos que lhe sobraram da faculdade costumam dizer «get a life». Ele supõe que o digam na brincadeira mas, ainda assim, já deu por si a perguntar-se se não seria boa ideia dedicar-se menos a desencantar faixas raras dos Árcade Fire e a sair mais de casa, de preferência sem música aparafusada aos tímpanos, e a interagir com outros seres humanos.

 

PARTY PEOPLE

Você conhece-os, mesmo que, em boa verdade, nao os conheça de lado nenhum e desejasse sinceramente nao ter que se cruzar com eles. Basta entrar no autocarro ou no metro. Aquela pulsação intensa que vem das redondezas (e que as vitimas nas redondezas tentam ignorar com uma espécie de ioga cerebral) não engana. Se você tiver alguma sorte, o portador da arma sónica de destruição maciça já se terá apercebido que hoje é quinta-feira e que estava mesmo na altura de pôr a roupa que se levou à rave na Serra dos Candeeiros no último fim-de-semana a lavar. Se assim for, só tem de se preocupar com a tortura da dieta musical, que pode compreender o largo espectro que vai do hard-trance ao drum’n’bass-tipo-200-km/h-em-contramão-na-Vasco-da-Gama-às-qutro-da-matina, e que foi devidamente armazenada no telemóvel cinza metalizado com protecções de borracha cor-de-laranja fluorescente. A cavalgada rítmica pode levar as vítimas a pensarem que o veículo de transporte público está com sérios problemas de embraiagem ou que acaba de estrafegar um pobre pastor-alemão distraído pelo cio.

 

PORTUGUÊS

Mantém uma excelente relação com os Caça-Rintones. Como é óbvio, nunca gastou nem nunca gastará um tostão naqueles CDs que tinham música já gravada (miraculosamente, havia sempre um tanso, que ninguém se lembrava muito bem quem era, que se tinha chegado à frente). Se fosse necessário usar dinheiro para aceder à obra musical de terceiros, argumenta o Português, Deus nunca teria inventado o Soulseek. Por uma questão de princípio, esta subespécie de downloader despreza o excesso de facilidades concedido pelos sites que oferecem música legalmente. Tem que haver uma pitadazinha de Chico-espertinho na operação – música que se deixa oferecer a qualquer um não é música séria. O Português tende a alegar, e com alguma premência, que a situação económica não lhe autoriza o luxo de pagar para obter o último sucesso dos Keane ou dos Il Divo. Luxo por luxo, antes de trocar de telemóvel todos os anos, comprar apartamentos e carros a prestações astronomicamente acima das suas possibilidades, ou ser alegremente explorado em bares e discotecas.

 

CAÇA-RINGTONES

Categoria que se subdivide de acordo com o grau de experiência do utilizador.

O principiante dos toques polifónicos e dos realtones ainda se baba com os dez minutos consecutivos de publicidade a vacas cantantes com protuberâncias mamárias que ocupam as tardes televisivas de domingo. Alguns até são capazes de prestar atenção ao filme que passa nos intervalos dos intervalos. Preferem mil vezes gastar, por exemplo, dois euros para receber os 15 segundos do refrão de «London Bringe», ou genérico da Pantera Cor-de-Rosa, ou o hino do Benfica, do que 99 cêntimos a comprar uma canção completa. Alegadamente. Já os mais experientes encaram os principiantes com uma mistura de condescendência e desdém. Há muito que já arranjaram um esquema para sacar de graça todos os toques que o pobre do telemóvel aguentar. Nem que a qualidade do som seja tão refinada que ponha as crianças a chorar e provoque crises epilépticas em pequenos animais domésticos. Além disso, os mais experientes tratam todos os amigos e todos os vagos conhecidos por «mano», mesmo que jamais tenham posto os pés no Alto da Cova da Moura ou em Vila d’Este.

 

Blitz Fora de Série nº 1 – Especial Download

As mulheres e o Rock’n’Roll

Cabelos longos, roupas justas, maquilhagem, brincos e vozes agudas. Essas são apenas algumas características do universo feminino que sempre foram muito utilizadas por grande parte das bandas de Rock, formadas por homens. Mas essas não foram as únicas e nem as mais importantes contribuições das mulheres no universo da música.

Enfrentando uma sociedade machista e preconceituosa, elas foram aparecendo aos poucos e, apesar de serem bem aceitas hoje, ao menos no meio artístico, ainda são alvo de discriminação.

Uma das pioneiras em quebrar alguns desses tabus foi a vocalista Janis Joplin em sua meteórica carreira solo, no final da década de 60. Mas isso era só o começo. Logo em seguida, o mundo ficaria aos pés de Suzi Quatro, das musas Joan Jett e Lita Ford, que lideravam o The Runaways e do Blondie, comandado pela carismática Debbie Harry.

Mas não foi só no bom e velho Rock que o erroneamente chamado "sexo frágil" obteve êxito. Na linha mais pesada, com forte influência Punk, as inglesas do Girlschool conseguiram grande repercussão, excursionando até com o Motörhead, considerados os "padrinhos" da banda.

Alguns anos mais tarde, surgiu o The Bangles, que fez história com álbum "All Over the Place", em 1984 e, junto com as meninas do Go Go’s, foram eleitas os maiores nomes do chamado Pop / New Wave. E já que estamos nos anos 80, não poderíamos deixar de mencionar o Vixen, o maior representante feminino do Hard Rock, que fez do seu álbum de estreia homónimo, um verdadeiro fenómeno de vendas em todo o mundo.

  Quem também marcou época foi a alemã Doro Pesch. Primeiro com o Warlock e depois simplesmente como Doro, gravando óptimos álbuns durante os anos 90. E foi também nos anos 90 que o mundo conheceu as californianas do L7. Praticando um Heavy Metal sem maiores cerimónias, o grupo emplacou vários hits nas rádios e na MTV, chegando a se apresentar em terras brasileiras em 1993, no festival Hollywood Rock.

Algumas mulheres ainda ganharam destaque tocando algum instrumento em bandas formadas exclusivamente por homens, como as baixistas Sean Yseult e D’Arcy Wretzky, do White Zombie e Smashing Pumpkins, ou actuando como ‘frontwoman’, como Gwen Stefani e Shirley Manson, do No Doubt e Garbage, respectivamente.

Há ainda aquelas que desde o início se lançaram em carreira solo, como Alanis Morrisette, Sheryl Crow e Tori Amos, não deixando nada a desejar em qualidade, carisma e talento para nenhum "barbado". Apesar de investirem em um tipo de som bem mais acessível, atingiram o ‘mainstream’ esbanjando atitude e escrevendo letras que falam em sua maior parte do mundo feminino: as desilusões, os prazeres, as revoltas, as angústias e os conflitos com o sexo oposto.

São as mulheres também que lideram a maior parte dos grupos Doom / Gothic, com seus vocais líricos e angelicais, que se encaixam perfeitamente nas orquestrações e atmosferas viajantes tão características do estilo. Podemos citar como as maiores representantes, beldades como Vibeke Stene (Tristania), Liv Kristine Espenæs (Theatre of a Tragedy), Tarja Turunen (Nightwish), entre outras.

Aqui no Brasil, temos nomes de peso como a pioneira Rita Lee, a já falecida Cássia Eller, a revelação Ana Carolina, as veteranas Paula Toller (Kid Abelha), Fernanda Takai (Pato Fu), a guitarrista Syang, que hoje trilha outros caminhos, além da saudosa banda de Heavy Metal, Volkana, só para citar alguns.

Não há, portanto, como não reconhecer a importância das mulheres no Rock, seja qual for o estilo, a época e a mensagem que elas estiverem nos passando. O fato é que as mulheres ajudaram a moldar, a aperfeiçoar e a embelezar não só a música que tanto amamos, mas o mundo em que vivemos.

Parabéns, mulheres. Vocês merecem!

Por Rafael Sigollo