Especial América

  O epicentro está em Nova Iorque, a maçã de Lou Reed e Woody Allen. O movimento podia denominar-se Nova Iorque mas seria demasiado confuso – NYC Rock garante a universalidade desejada, apesar de haver gente de San Diego e Las Vegas. Bandas como os Radio 4, Rapture, Walkmen, Yeah Yeah Yeahs e The Faint são a nova imagem de uma nação a braços com Bush e música que extravasa as fronteiras das idiossincrasias do melting pot. Nos interstícios, vestígios de uma adolescência britânica mal resolvida são o sal (ou a pimenta) de um novo cozinhado americano, mais rock – menos rock, mais electro – menos electro. Do lado de cá Morrissey canta uma evidencia: «América Is Not The World». É, contudo, boa parte dele.

O Mapa da Mina

  Dizem as convenções que a tempos de crise politica e social (valerá a pena enumerar as causas actuais?) corresponde música com pelo na venta. A convicção é daquelas generalizações abusivas que, à falta de melhor, resultam sempre. Sobretudo porque, apesar de gasta, a justificação tem um quinhão de verdade. Podíamos socorrer-nos da (ainda breve) história do rock para explicar tudo direitinho. Podíamos, ni limite, visitar um Elvis Presley antes da tropa.
  A vaga rock ‘n’ roll norte-americana que – assim escreverão os manuais – os White Stripes e os Strokes introduziram no tecido musical norte-americano surge – reconheça-se – numa daquelas alturas em que o rock pode ter um papel de contra-poder. A politica externa de Bush, a acção pós 11 de Setembro de Rudolph Giuliani, antigo presidente da câmara de Nova Iorque (a lei que regula a dança – sim, a dança – em recintos de espectáculos é um achado!), são os alvos mais visíveis. Musicalmente – e atente-se ao que dizem bandas como Radio 4, Interpol ou Rapture – o desgaste do nu-metal foi essencial para a exposição mediática deste «novo» rock, com a rádio a desempenhar o seu canónico papel de divulgação.
  Regresse-se ao nova-iorquino CBGB de Ramones, Television, Richard Hell e Patti Smith e deparemo-nos com um período paralelo, de pré-explosão punk – ou a evidência de que, afinal, o punk surgiu primeiro em Nova Iorque antes de explodir (e implodir) em Londres. Também agora o rock que interessa começa do lado ianque. Veja-se nos Strokes a ganga coçada, os casacos exemplarmente desalinhados, os riffs de uns Television mais concisos. Ou em Karen O, dos Yeah Yeah Yeahs (marca NYC), um post-mortem de PJ Harvey e Chrissie Hynde, elo perdido entre a emancipação idealista e uma apreciável futilidade.
  Encontre-se nos Radio 4 (ainda Nova Iorque, omnipresente) o testamento dos Happy Mondays, a dança pela dança, a dança politizada. E nos !!! (Sacramento e Nova Iorque) a dança nua, a dança pedrada, o festim funk, um um interface ritmo-corpo que os Rapture (Nova Iorque) – pela via do rock – também operam. Ou a revolução digital dos Faint (Omaha, Nebraska), os fatos justos, as «skinny ties» ou a evidência de que é possível dançar com sapatos pretos exemplarmente engraxados. Desvende-se nos Walkmen (ou serão já iPods?) um inusitado fascínio pelos primeiros U2 (alguém tinha que fazê-lo!) ou as derivações neo-românticas (e Duran Duran) de uns novíssimos Killers (Las Vegas), eles que ousam citar os Oásis como referência. Registe-se, por fim, a agressão pós-punk de uns French Kicks (Washington) e está traçada a rota do sucesso.

O Período Inglês

  O amor declarado da Grã-Bretanha aos Estados Unidos, e que abarca diversos sectores de cultura e de hábitos, nunca foi muito correspondido do outro lado. O desprezo das terras de Tio Sam para com o seu país irmão é crónico – no fundo, o desprezo similar que a ilha britânica sempre reservou ao resto da Europa.
  A invasão britânica dos anos 60 (Beatles, Rolling Stones, The Who) foi a excepção mediática que ainda hoje provoca um sorriso de orgulho patriótico em cada súbdito de Sua Majestade. Hoje, a invasão britânica é de outra índole; veio dos discos emprestados pelo vizinho da rua mais enigmático e culto, para as mentes dos músicos que dão presentemente uma nova vitalidade ao rock americano. De repente, tornou-se cool mencionar na imprensa, e de forma pedagógica e professoral para os fãs mais novos, que todos os feitos cancioneiros desta nova vaga têm como grande referencia as grandes bandas inventivas da Grã-Bretanha vetadas à fama americana.
  Os que melhor passam desta teoria à prática são os Interpol. São obsessivos por um ar sombrio que não existe na América, à custa do frenesim niilista herdado dos Joy Division e do empréstimo do romantismo inocente consentido pelo Chameleons. São um caso sério de equívoco na nacionalidade. Os Vitesse são as suas almas gémeas: apenas trocam as cordas das guitarras pelas teclas e, sem quererem, descaem para os New Order. Quando se tornam mais cândidos, convocam a serenidade dos Wolfgang Press. Mais uma vez, o tecido urbano cinzento da cidade industrial britânica é desenhado no meio das grandes áreas dos Estados Unidos.
  Os Black Rebel Motorcycle Club também não se enxergam na sua reverência pela vanguarda britânica dos anos 80. mas escolheram os Jesus & Mary Chain; acharam-lhes graça aos óculos escuros e ao concentrado caótico daquelas placas capilares encaracoladas; e adaptaram a música ao mínimo de notas essências e ao máximo de empenho físico, com o tal toque outonal de quem nunca vê o sol – é o que vem no guia Psychocandy (o álbum seminal da banda escocesa).
  O radicalismo incontido da mais aterradora invenção de Malcom McLaren (os Sex Pistols, claro) é repescado pelos Yeah Yeah Yeahs. Mas os gostos da banda de Karen O estão dispersos por várias épocas e apanham o debute de PJ Harvey nos anos 90, com toda aquela ferocidade de quem não está disposto a conceder um único instante de paz a quem ouve.

FONTE: BLITZ