Musica Infantil (por Ana Markl)

Por que é que as unhas crescem? De que são feitas as nuvens? Muitos músicos dedicaram a sua arte à idade dos porquês, como Sérgio Godinho. Ou mesmo à idade em que nada se questiona, como Raymond Scott.

Na tabela nacional de vendas de DVDs, persistem As Músicas da Carochinha, Caixinha de Sonhos e As Canções da Nossa Escola, compilações de música infantil ilustrada por animações coloridas. A TV Cabo anuncia, entre um pacote de novos canais, a inclusão do Baby TV e volta a discutir-se o efeito da televisão sobre as crianças – até que ponto será saudável expô-las a este hábito passivo e sedentário? A operadora alega tratar-se de «um trabalho que envolveu pediatras e psicólogos infantis, para adaptar os programas às necessidades das crianças (até aos 3 anos) e dos pais». O canal inclui, por exemplo, canções acompanhadas por «movimentos visuais que favorecem ambientes de harmonia» para relaxar as crianças – e, consequentemente, os pais – depois de jantar.

Quando, no início da década de 60, o norte-americano Raymond Scott compôs os três volumes de Soothing Sounds for Babies, tinha também em vista o relaxamento dos bebés entre um e 18 meses. Porém, não se tratava do tipo de relaxamento que a televisão oferece nos dias de hoje, principalmente dirigido aos pais impacientes e geralmente associado a um «mete lá o puto a ver isso para se calar de vez». Baseando-se num estudo do Gesell Institude of Child Development Inc., Scott dedicou estas três obras de electrónica ambiental visionária ao apurado sentido auditivo dos bebés. Provou que sossegar uma criança é estimular o seu desenvolvimento, é apelar à sua tranquila e inteligente capacidade de concentração, desafiando ao mesmo tempo os ouvidos dos adultos através de uma criatividade e tecnologia futuristas.

Compor e escrever a partir do imaginário infantil não implica qualquer tipo de facilitismo na linguagem. Pelo contrario: quando uma criança pergunta de que são feitas as nuvens, o que é difícil é evitar o discurso meteorológico e, ao mesmo tempo, fugir do cliché do algodão doce. Mas Sérgio Godinho conseguiu marcar a idade dos porquês da geração que seguiu a série infantil Os Amigos de Gaspar, nos anos 80. Nas canções compostas para as aventuras das marionetas, em vez de responder, colocou novas questões: «Quem sou eu, disse eu, mas ninguém respondeu». Além de Sérgio Godinho Canta com os Amigos de Gaspar, editado em CD, o músico teve ainda uma incursão no mundo das crianças pela via literária com O Pequeno Livro dos Medos (Assírio & Alvim): «Quando não se conhece qualquer coisa, a cabeça não pára de fazer perguntas. É por isso que o desconhecido é um bicho que mete medo e ao mesmo tempo apetece conhecer».

Mas nem tudo é metafísica – também há que opte pelo estímulo da imaginação desvairada. Os americanos They Might Be Giants sempre puseram qualquer coisa de lengalenga no modo como cantaram «I Palindrome I» (em Apollo 18) ou «Particle Man» 8em Flood), mas só recentemente assumiram a criança dentro si ao substituírem as letras de nonsense adulto ou a ironia fina pela alegria de um gato hippie ou o desejo de ser um polvo. Criaram o site www.giantkid.net, editaram o CD interactivo No! (em que se pode brincar com a cabeça de Abraham Lincoln) e preparam-se para ensinar o alfabeto com o lançamento de Here Come the ABCs. Bed Bed Bed, de 2003, é um livro-CD que leva as crianças por mundos improváveis (mas sempre apresentados como possíveis) até à hora de deitar, passando por aquela altura em que – por que não? – se vê um bocadinho de televisão.

Crescer depressa

As crianças também têm lugar no mercado dos adultos – por exemplo, o pequeno Saúl cantou sobre o melhor tempero para o bacalhau, antes de se tornar demasiado adolescente para fazer render as suas cacofonias marotas. Recentemente, França e Espanha tiveram dois fenómenos infantis adorados também por gente grande. Os mais atentos terão certamente parado o seu zapping no canal francês MCM, na altura em que uma bonequinha digital cantava sobre as suas férias, acompanhada por uma batida de dança. «C’est les Vacances» é um dos grandes êxitos de Ilona Mitrecey, uma miúda de 11 anos que deu a sua voz a anúncios e cujo álbum de estreia, Un Monde Parfait, está inabalável entre os 10 discos mais vendidos em França. O sucesso explica-se através das atractivas animações dos telediscos, das melodias simples e letras inocentes dirigidas às crianças, mas muitos adultos deixaram-se levar pelo efeito que a componente dançável teve nas pistas de algumas discotecas francesas.

Em Espanha, tudo menos inocente foi a estreia da espanhola Maria Isabel, 10 anos, no Festival Eurovisão Júnior de 2004, com a canção de sua autoria «Antes Muerta que Sencilla» («Antes Morta que Solteira»). O sucesso entre o público adulto não é acaso – a letra deste primeiro single, incluído no debute !No Me Toques las Palmas que Me Conozco!, diz mais aos pais do que aos filhos: «Y si algún novio se me pone por delante, le bailo un rato y unas gotitas de Chanel nº 4, que es más barato» («E se algum rapaz se põe à minha frente, danço um bocado e umas gotinhas de Chanel nº 4, que é mais barato»). Há quem já nasça ensinado.

FONTE: Blitz

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